
Sim, estou mais duro e áspero. A cada instante percebo isso mais e mais. Não só eu. No mínimo quatro outras pessoas também notaram a mudança. Já três vezes ouvi a pergunta "Felipe, você tá bravo comigo ou alguma coisa?" e mais quatro vezes ouvi afirmação "Estou te sentindo um pouco diferente. Estranho. Distante, talvez."
Sim, realmente estou tudo isso. Tudo isso de uma única vez. Distante, apesar de finalmente reunido com os amigos. Estranho e diferente apesar de não ter passado perto de nenhum reator nuclear mutagênico ou coisa do tipo.
Mas é verdade. Estou estranho demais. E na verdade acho que tem a ver com a minha viagem.
Tenho a tendência de voltar diferente das minhas viagens.
Acabo me perdendo cada vez mais dentro do meu mundinho mental, refletindo sobre coisas inúteis e passadas. Refletindo no que poderia dizer isso ou aquilo sendo que eu sei que as minhas reflexões não me levarão a nada além de discórdia interna e desconforto.
Desconforto.
Desconfortável.
Acho que essa palavra define melhor do que qualquer outra o meu estado atual.
Estou desconfortável dentro de minha própria pele.
Tenho estranhado as pessoas e recebido estranhamento como resposta.
Já várias vezes discursei de como eu sentia falta dessa sensação de inquietude. No entanto, agora que a tenho, não consigo ter certeza se era exatamente isso que queria. Não sei. Acho que me falta algo ainda.
Sim, definitivamente me falta algo. Algo essencial. Algo básico. Algo indefinível.
Mas mesmo assim é algo.
Seria esse algo um borrão vermelho nos lábios?
Agora eu quero acreditar que sim.
Amanhã vai ser a vontade de estudar. E no dia seguinte vai ser a vontade de fazer qualquer outra coisa.
Tenho imaginado coisas obscuras recentemente. Coisas não legais.
Enquanto estava no meu vôo, voltando para o Brasil, me sentia bem quando o avião balançava a favor das turbulências externas e levantava os cantos da boca a cada tremida.
E por um longo instante fiquei imaginando a queda do avião ou uma mid-air collision. Conseguia ouvir os berros desesperados de todos os passageiros. Via mães e homens correndo pelos corredores. E eu estava lá, perfeitamente calmo dentro de minha poltrona.
No meio de todo o alvoroço, eu levantava e andava lentamente para o assento uma mulher, sentava-me ao seu lado e dava-a um beijo enquanto o avião caia e caia.
Era uma cena linda e mórbida, mas a morbidez era muitíssimo sutil. Na verdade imperceptível. Era algo puramente romântico e emocionante.
Recentemente tenho imaginado várias cenas desse tipo. Acredito que isso não seja lá muito normal.
Normal ou não, é o que tem cruzado meus pensamentos de uns tempos pra cá.
Voltei ao hábito de jogar video-game e acredito que isso tem tomado mais do meu tempo do que deveria. Em três ou quatro dias joguei mais de dez horas.
Acho que não mereço as coisas que tenho. Não mereço. Ou talvez eu só diga que ache que não mereça para que os outros possam vir e dizer "Não, Phil, que que é isso!? Claro que você merece! Olha quanta coisa legal você já fez!" e assim continuo naquela minha na necessidade de ser vítima, característica que aparentemente é herdada geneticamente.
Reconhecer é o primeiro passo? O meu cu! Eu reconheço um MONTE de merda minha, UM MONTE, mas não faço PORRA nenhuma pra mudá-las.
Quer saber qual é o primeiro passo de verdade?
O primeiro passo são os primeiros cem passos que você dá em direção a qualquer outra coisa. Reconhecer não leva a porra nenhuma.
Na verdade leva sim! Reconhecer seus problemas te leva numa busca de piedade e dó E MAIS NADA. Ao reconhecer seus problemas você somente consegue expor aos outros o quão fraco e merda você é. PONTO FINAL.
Se você quiser mudar alguma coisa LEVANTA ESSA SUA BUNDA GORDA DO CARALHO E FAZ ALGUMA COISA!
E sim, muitas vezes a mudança tem que partir de nós mesmos, eu sei disso. NA verdade sei MUITÍSSIMO bem disso (se eu pudesse, estaria até piscando pra você, leitor, só pra mostrar o quanto eu realmente sei disso). Mas em muitos outros casos também ajuda a ter alguém em quem se apoiar. Alguém que diga "Vai lá! Faz assim, assim e assado que vai ficar tudo bem!" ou coisas do gênero.
Não estou terceirizando a responsabilidade de mudar.
Na verdade, quer saber? Estou sim e não quero admitir.
Mas foda-se. Que seja.
Em alguns momentos é excelente ter a ajuda de um outro alguém.
Mas e no meu caso? Como que eu faço?
Como é que eu volto pro Phil antigo, seja lá como ele era? O que era diferente? O que era igual?
Não sei. E também não sei se gostei desse neo-Felipe. Ele é muito facilmente irritável. Muito seco. Áspero.
Mas, de qualquer forma, esse neo-Felipe tem aquele aperto no coração que ele tanto ama. Espero que seja isso mesmo que ele goste.
A faculdade também me preocupa demais.
Perambulando aqueles corredores mais uma vez, depois de meses e meses sem passar por lá, e depois de ter sentado para estudar (sem estudar muito de verdade) aquela grandíssima dúvida me vem a cabeça cada vez mais forte: "Será que estou no lugar certo?"
E a cada segundo parece que a resposta é mais óbvia:
"Não."
Ainda não sei dizer se estou no lugar errado ou não. Mas a sensação de displacement é cada vez maior.
Hoje, voltando para casa depois de aproximadamente cinco horas de ensaio no GTP ouvi a trilha sonora do filme Old Boy no meu recém-presenteado MP3. Mais especificamente, ouvi uma versão da música "Inverno", de Vivaldi. E enquanto dirigia ao som dessa música, sentia que uma fúria me tomava. Eu estava realmente com raiva! Eu estava puto! Sem motivo nenhum! Dirigi mais rápido do que eu deveria mas não coloquei ninguém em perigo. Ninguém além de mim mesmo. Mas não pensem que voei, podem deixar. Só dirigi a 90 km/h no MÁXIMO. Mas mesmo assim, o que mais me alarmou foi a fúria com a qual me encontrava ao sair do estacionamento. Era poderosíssima. E eu sentia que não era algo só devido à musica e à cena do filme a qual ela me remetia. Não, havia muito mais por trás disso. Havia insatisfação, desgosto, desprezo, desaprovação e raiva pura.
Ao chegar nos portões da faculdade já estava num clima diferente. Já estava um pouco menos caótica a situação.
Engraçado. Estou gostando bastante de montar a peça pros bixos esse ano. Gostei MUITO do texto no qual agente se baseou. Mas ao mesmo tempo tenho me sentido irritado com alguma coisa. Mais uma vez não sei definir aquilo que me aflige, mas preciso dizer que tenho ficado irritado por razões invisíveis e provavelmente inexistentes.
Nesses últimos dias usei e abusei da minha câmera nova. Tirei, inclusive, várias fotos do ensaio de hoje que, por sinal, achei que ficaram muito boas. Ainda tenho que colocar no Picasa as fotos da minha viagem até Budapeste. Talvez eu decida fazer isso hoje mesmo.
Sentado na frente dessa tela esbranquiçada, procuro mais e mais palavras pra poder vomitar em cima do teclado, mas acredito ter chegado ao fim. Pelo menos por hoje. Já foi aspereza o suficiente para um post só.
Até a próxima.
Tchau.
Imagem de Phil
Link:
http://picasaweb.google.com/phildias/OsPontosVerdes/