Naquela época

Estou com vontade de chorar, no entanto lágrimas não me vêm. Estou triste.
Sim, tenho até uma razão por estar triste: estou sozinho. Ou melhor, sinto-me só.
Não estou sozinho não. Existem muitas pessoas ao meu redor que gostam de mim e me amam, disso tenho certeza. Mas algo se perdeu com o tempo.
Um fio de algo foi perdido. E esse fio não poderá ser recuperado.
Estou falando da minha família.
Estou com saudades da minha família. Daquela sensação de ter cinco pessoas aqui em casa, pessoas essas quem eu via todo dia e com quem me relacionava de um jeito único e inigualável.
Olha as lágrimas chegando...
Estou com saudades da proximidade entre todos nós...
Hoje cada um está em seu canto. Inclusive meu pai, com quem vivo até hoje, sinto uma distância estranha. Não que não haja tentativas de proximidade. Não é isso. É algo diferente. É um tipo de união estranha que só se dava antigamente, naqueles anos dourados da adolescência e da infância. Nos tempos em que sentávamos todos à mesa na hora do jantar e conversávamos sobre qualquer coisa (na maioria das vezes o trabalho dos meus pais era o assunto principal)...
Essa páscoa senti falta disso.
Senti falta de estar com a minha família.
Com a MINHA família.
Senti saudades de comer os ovos que a minha avó fazia e que meus pais escondiam pela casa. Sim, eles escondiam os ovos até quando meus irmãos e eu eramos bem crescidos.
Sinto falta do pão-de-mel da minha vovó. Dos biscoitos de nata que ela fazia uma vez a cada dois anos.
Estou com saudades de sair de Sexta a noite com o Leo, meu irmão, para ir ao cinema assistir um filme no Villa-Lobos...
Estou com saudades das jantas eventuais no Rascal com ravioli verde e giz de cera...
Estou com saudades da minha família... Estou com saudades de todos...
Quero poder sentar de novo em uma mesa de jantar para comer arroz, feijão e carne moída sabendo que todos os outros quatro estarão a minha volta.
As coisas mudaram. Sim, eu sei. As coisas mudaram. E na maioria dos casos, a mudança foi boa. Infelizmente não sou grande fã da mudança.
Finjo muito bem: "Pois é, diferente é SEMPRE bom"...
Mas às vezes, muitas vezes, aliás, queria que tudo voltasse como antes... Que o tempo voltasse...
Minha mãe está na Suíça. O Leo, meu irmão do meio, está na Hungria. O Luiz, meu irmão mais velho, irá pro Canadá em Agosto.
Vivo hoje com meu pai na mesma casa de antes. Casa essa que guarda tantas memórias...
Sinto como se fosse pouco tempo atrás que fazia guerra de bolinhas de pelúcia da Coca-Cola...
Quando eu era menor e eu sentia medo de dormir no meu quarto, eu pegava meu travesseiro e edredon, entrava no quarto dos meus pais e dormia no chão, ao lado da cama deles.
Sinto saudades também dos amigos dos meus irmãos vindo aqui em casa... Todo mundo gostava de mim... "GRAAAANDE PHIIIIIIL!!!"
Caralho....
Que saudades de todos...
Hoje é aniversário do Leo. Queria poder abraçá-lo e dar-lhe um beijo de parabéns.
Infelizmente não poderei fazê-lo... A distância é uma grandíssima filha-da-puta...
Sim, eu sei que as chances são maiores e melhores lá fora, tenho total consciência disso... Sei que será muito melhor pro Luiz ir pro Canadá...
MAS FODA-SE...
Tenho saudades...
E quando chega um dia desses, fica foda...
Hoje almocei com meu pai, a Mari e a família de uma amiga dela (de quem ela é praticamente irmã)...
Como em muitos outros momentos da minha vida, fiquei sozinho. Estava totalmente solitário. E não havia nada que qualquer um daquela mesa poderia fazer.
Não, pai, desculpa, mas nem mesmo você. Eu queria estar com você sim. Mas com você e com todos os outros. Com o Luiz, com o Leo e com a Mamãe. E com as vovós e com os vovôs. E com tios e tias. E todo o resto.
Que saudades que bateu agora da minha vó Teresa (mãe do meu pai, falecida no fim de 2005)...
Lembro que no dia do enterro e do velório dela eu não chorei até o momento em que jogaram terra em cima de seu caixão... Comecei a chorar e não consegui mais parar.
Ficava pensando no meu avô ao mesmo tempo. Eles foram enterrados um ao lado do outro.
Não, não quero morrer. Nunca.
Independente de o que acontecer. Independente de qual parte do meu corpo falhar, seja meu nariz, meus olhos, meus ouvidos, minhas mãos, minhas pernas, meus rins, meus pulmões, meu cérebro. Sempre quererei viver.
Sei que é egoísta da minha parte querer continuar vivendo mesmo causando tristeza e dor a minha família quando eu estiver idoso, não compreender nada e só ser uma preocupação aos outros.
Mas foda-se.
Quero viver.
Sempre.
Sempre.
SEMPREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!
NUNCA CESSAREI DE EXISTIR!!!
NUNCA MAIS ESSE MUNDO SE LIVRARÁ DE MIM!!!
Nunca, nunca, nunca...
Viverei para sempre...
Serei mais eterno do que diamantes...
Serei mais eterno do que o tempo...
NÃO GANHARÁS DE MIM, SEU MALDITO!!!!
SEU FILHO DA PUTA!!!!
TEMPO, SEU MERDA, VOCÊ NÃO GANHARÁ NUNCA!
VENCI!
VENCI!
VENCI!!!!
SOU MUNIDO DA VIDA ETERNA POR PORTAR A CHAMA E VONTADE INFINDÁVEIS!!!
NUNCA ME APAGARÁS!!!
NUNCA!!!!
Nem mesmo se me arruinar de todas as formas possíveis...
Vai, me fode! TENTE ME FODER!
Tire meu emprego, meus estudos, meus amigos, meus amores, meu tudo!!
ME ARRANQUE TUDO!!!
NÃO COSNEGUIRÁS ARRANCAR A COISA QUE ME É MAIS PRECIOSA: MINHA SEDE DE VIDA!!!
NUNCA COSNEGUIRÁS ME ARRANCAR ISSO!!!!
Quando digo que viverei para sempre, me perguntam se eu agüentarei ver meus amores morrer...
Sim, penoso e cruel sei que será... Mas sou mais covarde do que qualquer outra coisa. Tenho medo do abismo negro que a morte esconde... O obscuro me amedronta...
NÃO, nunca conseguirás me levar, morte filha duma puta!!!
NUNCA!!!!
Estarei sempre aqui...
Sempre presente... Não conseguirás me ceifar... NÃO CONSEGUIRÁS ME CEIFAR!!!
Minha sede vence... A MINHA SEDE DE VIDA VENCE!!!!
A MINHA SEDE E COVARDIA SÃO MAIORES DO QUE QUALQUER OUTRA COISA QUE JÁ VIU, SENHORA MORTE!!!!
SIM, SOU IMORTAL E ZOMBO DA SUA CARA, VELHA ESCROTA!!!
NUNCA ME LEVARÁS!!!
Serei EU quem ceifará a sua existência...
Sou eterno...
Tenho infundido em mim a chama azul e violeta...
Aquela inapagável... Inextingüível...
Sou eterno e eternamente o serei.
Feliz Páscoa a todos.

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